CONHEÇA O NCL - Dezessete horas.

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Oficinas de Escrita e Discussões Literárias.

Dezessete horas.

Setembro 5, 2017

   “Eu, personagem do buraco negro, do vazio escuro e ilimitado que nada fala, nada ouve e vive, como um ser só, soando no limbo, resquícios de sonhos e solidão”. Porque as pessoas fazem literatura de banheiro? Contraio a bexiga, um jato de urina dispara, o último. Porque nosso desejo de comunicação é tão intenso que borramos de batom as portas dos banheiros?   

   Droga, não tem papel reviro a bolsa, papel? Papel? Nada. Olho as meias, antes as meias… meus pés doem. Quando começaram a doer? Faz tempo? Me volta a memória da gorda estúpida do trabalho… que mulher deprimente, reclamava do esporão, do esporãozinho. Balanço a cabeça, afasto a imagem, tenho pavor de reclamar do esporãozinho. O ortopedista me disse para comprar uma palmilha de silicone e explicou como aliviar a dor do esporão calcâneo. Achei que era castigo! 

   Sentar… peso na perna direita. Sentar… peso na perna esquerda. Na Luz o trem é cheio, mas quem sabe no Brás? Se todos forem para o happyhour o trem estará vazio. Hora feliz. Hora feliz é aquela passada sentada na viagem de trem! Penso no momento em que poderei me livrar dos sapatos, vestir os chinelos, tirar as meias mijadas, o soutien, a calça que marca o culote.  

   Sigo rumo a plataforma, quanta gente, se fossem peixes seriam cardume, parecem cardume, cheiram como cardume, mas peixes são mais organizados, não saem trombando uns nos outros dessa forma. Por que não vim um peixe? Vida de peixe, destino de peixe. Sardinha, se eu viesse peixe seria sardinha, para acabar enlatada, igualzinho no trem.  

   Escada rolante, contorço meus pés sofridos, coloco o peso novamente na perna direita, no meio da subida troco para a perna esquerda, não alivia nada, sigo rumo à aglomeração do primeiro vagão, a maioria são mulheres, fico logo antes da faixa amarela e olho o foço dos trilhos, balanço o corpo, meus olhos são atraídos sempre para o foço, procuro ratos, se eu cair daqui machuca muito? Se eu me machucasse um pouco, nada grave, mas o suficiente para uns dias de hospital, sendo cuidada, o pretexto perfeito para largar tudo sem sentir culpa, um afastamento legítimo.  Claro que eu não quero me matar, quero apenas descansar, descansar sem sentir culpa, sem ter que dar explicações, sem precisar atender a ligação para dizer que já estou chegando. Chegando… 

   “Senhores usuários, cuidado com o vão entre o trem e a plataforma…” a mensagem monótona me chama à responsabilidade, antes os alto-falantes eram visíveis, agora parecem vozes fantasmas, se misturando à tantas outras na minha cabeça. O trem já estaciona lotado, entro assim mesmo, nem tento segurar. Blindo-me como posso dos corpos e cheiros, não olho ninguém. Sem contato. Sem contato. Conto sem parar os dedos das mãos, de dois em dois. Não consigo ver a paisagem pela janelinha, mas tenho todo o percurso decorado.  

   Brás, baldeação, escada rolante, coloco o peso na perna direita, troco para a esquerda, sem alívio. Sigo para o primeiro vagão. Meus pés doem. Tenho esporão, mas não admito a ninguém. Tenho pavor de reclamar do esporãozinho. Como a colega no trabalho. Ela não pega trem, mas reclama do esporãozinho. Se pegasse morria! Me incomoda essa pena que ela sente de si mesma. Minha amiga me diz: “para de implicar com a pobre, o seu problema é pinto! ”. Nem de pinto eu gosto, eu gosto é de voltar sentada na viagem de trem. Não foi dessa vez, busco o fundo do vagão. Repito meu tedioso balé buscando aliviar a dor nos pés, a cada parada renovo a expectativa de sentar-me. Sinto a bexiga encher. Acrescento o movimento de apertar a bexiga ao de aliviar os pés. Chegando à estação terei que ir no banheiro.  

   Sem escada rolante, subo cada degrau lentamente. Sigo até o banheiro. Último jato. Na porta está pichado “Jesus te ama”. Droga, não tem papel. Olho novamente para a pichação: Se Jesus me amasse, teria papel! 

 

Ivone Mariano

 

 

 

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