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Oficinas de Escrita e Discussões Literárias.

Bege

Agosto 31, 2017

   “A vida passava breve e longa com todo o pensamento aprisionado em seu quarto. A umidade aprisionada naquelas quatro paredes, molhava de leve a pele da moça bege. A moça bege ficava ali, como se fizesse parte dos móveis do aposento, quase invisível, camuflada”.

   Suas articulações, já enferrujadas, aquele torcicolo do lado esquerdo do pescoço, a trava das costas, a dor de cabeça. A moça sente nas entranhas o arranhar das engrenagens do relógio. O tempo é coisa curiosa, você não pode vê-lo, não pode tocá-lo, não pode prová-lo, e mesmo assim ele age sobre você, você o sente profundamente. O tempo é algo como um Deus, para as pessoas que têm fé.

   Aqui, engalfinhada na cama, enquanto o despertador não toca – e nem precisava, já que ela sofre de insônia -, os pensamentos são entrecortados pela dor pulsante, como se lhe dessem contínuas marteladas que abalam o topo da cabeça e retumbam no ouvido. Essa noite não pregou o olho nem por uma hora. Na tevê, ligada na emissora hegemônica, passa a Sessão Corujão. O filme é uma ficção científica sobre um rapaz que todos os dias, ao acordar, percebe-se sempre vivendo o mesmo dia.

   Cinco horas, o despertador toca. Urina, apertada. No banheiro, se lava tentando fazer escoar o excesso de umidade e de pensamentos. A dor continua. O dia começa. Veste uma roupa qualquer, não penteia o cabelo, faz um coque. Não há tempo pra tomar café, de casa ao trabalho são 2 horas e meia, sem trânsito. Um trem, dois metrôs e dois ônibus. Trabalha lá na zona sul, Jardim Ângela. Se eu der mais um passo – a moça pensa – caio fora do mapa.

   Lá no projeto social, a moça tira gente da rua, corta cabelo e se precisar até dá banho, ajuda a escovar os dentes. Ela teme que algum dia um moleque mal intencionado, inconsciente do bem que ela lhe fez, volte pras drogas e queira persegui-la. Ainda dói. Das histórias que a moça ouve todos os dias a gente não pode nem imaginar e é essa algaravia de vozes que lhe ressoam à noite nos ouvidos e não a deixam dormir.

   Ela se sente despedaçar em inúmeros perfis, como os espelhos de um caleidoscópio sem cores, cada parte sua refletindo uma dessas histórias. O dia inteiro assim, aos pedaços, nunca inteira.

   17h48. Volta pra sede, põe o dedo no leitor digital, pega o papelzinho que foi impresso, guarda para o caso de precisar provar pra chefe, se pagamento não vier certinho. Volta pra casa, horário de pico, agora serão, no mínimo, 3 horas. Pega o ônibus vazio, mas logo se levanta pra dar lugar pra uma senhora com três filhos, um deles não deve ter ainda um ano, o segundo beira os dois, a menina, mais velha, não aparenta ter chegado aos quatro… um por ano – ela pensa. A moça não tem filhos e nem pretende ter.

   Olha a paisagem e tenta se distrair, a dor é persistente. Na hora do almoço ela tomou um comprimido, melhorou, mas não passou. Nunca passa. No metrô é igual, cheio de gente, ela está cansada, mas não há qualquer pretensão de se sentar.

   Quando chega ao trem, as juntas rígidas pelo pouco espaço, quase não consegue se mexer. O cheiro de trem às 19h30 é um misto de desodorante vencido e meias mal lavadas. O estômago embrulha um pouco. Quando finalmente chega em casa não está com fome, mas se obriga a comer. Se arrasta até o chuveiro, tenta tirar o suor e o cansaço na água norma. Exausta, se deita.

   4h45 e a moça ainda não pregou o olho. Tenho que procurar um médico – ela reflete, enquanto outros pensamentos e as dores constantes se misturam. Rola de um lado pro outro na cama. Sente o arranhar. É como se realmente seu corpo fosse um sistema cheio de engrenagens que giram com dificuldade, como um relógio antigo.

Cinco horas, o despertador toca. Urina, apertada. No banheiro, se lava tentando fazer escoar o excesso de umidade e de pensamentos. A dor continua. O dia começa. Veste uma roupa qualquer, não penteia o cabelo, faz um coque. Não há tempo pra tomar café, de casa ao trabalho são 2 horas e meia, sem trânsito. Um trem, dois metrôs e dois ônibus. Trabalha lá na zona sul, Jardim Ângela. Se eu der mais um passo – a moça pensa – caio fora do mapa.

Mara Aline

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