Sistema de Bibliotecas

Universidade Federal do ABC

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Bairro Santa Terezinha - Santo André
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HIAH

Agosto 30, 2017

 Deitada em um banco de cimento enlodado pela chuva. Cantinho bucólico, gramas, samambaias, pássaros brincando, era a escola. Um braço apoiado na testa para desviar os raios de sol, uma perna dobrada outra esticada, calças largas de tom marrom desbotado, tênis all star quase a desamarrar, mochila bege rabiscada com canetas de várias cores jogadas ao lado, cabelos cacheados de um ruivo quase vermelho despencam atingindo o chão com algumas folhas presas pelas dobras dos cachos, olha para o céu por trás dos galhos do ipê, fecha os olhos e se deixa levar pelo borbulhar de seus pensamentos.

Hiah! Hiah… Soa tão estranho, esquisito… Porém único. Isso! Hiah! Única, esplendida, eu a senhorita esplendida. Hora de ir para casa…

Levanta, ajeita a mochila, prende o cabelo no topo da cabeça, vê as folhas, mas as acha graciosas e resolve deixar, coloca a mochila por uma alça e sai.

Não queria ir para casa. Hoje poderia ser terça-feira outra vez, não sei por que os finais de semana existem, são tão desnecessários. Pelo menos para mim, os meus não são como os das minhas amigas… Mas agora não tem jeito, preciso ir. Quando eu conseguir um trabalho eu saio de lá e levo minha mãe e meus irmãos, eles ficarão bem melhor sem ele. Vou ser médica para saber cuidar da saúde dela, não a quero ver morrer, não sei o que seria de mim se isso acontecesse…

Enquanto caminha, chuta as pedras e latas, descontando nelas os aborrecimentos causados pelos pensamentos.

Não quero casar com ninguém daqui. Esses moleques toscos, não! Não mesmo. Nem sei se gosto de menino mesmo, talvez nem goste. Por que tinha que ser ele, justamente ele o meu pai. Poderia ser qualquer outro ou nem precisasse tê-lo. Assim não, assim melhor não ter.

Começou a lembrar de todas as vezes que chegou em casa e viu sua mãe com manchas rochas, olhos inchados, roupas rasgadas e cabelo revirado, chorando abraçada e tentando acalmar os gêmeos. Naqueles momentos a dor apertava o peito, o nó na garganta e o choro inevitável. Chorava de ódio dele, chorava por ver a mãe machucada, chorava tantas vezes por não saber como mudar tudo aquilo (ela sentia impotência, mas ainda não sabia o nome para o sentimento que estava cansada de sentir). Ainda chora escondida, abafada pelo travesseiro. Para ela, o que resta é chorar e sentir uma angústia que não tem mais fim.

De súbito:

Mas e se… E se ele morresse!? Se sofresse um acidente!? Não! Não devo pensar nessas coisas, ele é meu pai… A nossa vida é um inferno com ele, mal dormimos aos finais de semana… Mamãe acha que as pessoas que cometem esse tipo de coisa vão para o inferno. Será que o inferno é pior que nossos finais de semana? Não sei se ela está certa, mas se eu fosse para o inferno, pelo menos eles ficariam bem? Eu só queria que ele mudasse, mas ele não muda.

O caminho passou tão depressa que não se deu conta de que já havia chegado na rua da sua casa. Um burburinho, gritarias. Ela corre em direção ao portão, abre a porta e vê o pai de costas. Lembra que já faz treze anos aproximadamente, que ele chega bêbado e, naquele dia, não foi diferente. Ofegava antes pelas lembranças, ofegava agora pela cena: outra vez, vê a mãe caída no chão, sem forças nem mesmo para chorar, os irmãos mais novos desesperados no berço. Não hesita, pega o vaso do lado da
porta, chega por trás e, num único golpe, ele está no chão.

Demorei para tomar essa atitude, deveria ter feito na primeira vez. Não me arrependo!

Uma voz de longe chama com doçura.

— Hiah? Hiah? Calma… Calma… Tudo bem?

Era dona Cida, a zeladora da escola. Uma senhora já com seus cabelos grisalhos, rechonchuda. Hiah acorda com o coração na boca, suor por toda a parte.

— Oi dona Cida. Só estou um pouco tonta. Deitei aqui e acabei dormindo e tendo um pesadelo.

Dona Cida senta ao lado dela, pega sua mão dando umas tapinhas suaves.

— Calma tá tudo bem, já passou. Agora você precisa ir para casa para descansar essa cabeça.

— Tá bem. Obrigada por me acordar, já estou indo.

Resmunga por entre os dentes.

—Descansar, descansar… Na verdade nem queria ir para casa.

— Disse alguma coisa Hiah? Pergunta dona Cida.

—Não dona Cida, está tudo bem, só pensei em voz alta.

A zeladora olha nos olhos de Hiah, como se soubesse de toda aquela turbulência.

Vá para casa hein! Hiah, para casa…

— Pode deixar, vou sim.

Levanta, ajeita a mochila, prende o cabelo no topo da cabeça, vê as folhas, mas, as acha graciosas e resolve deixar, coloca a mochila por uma alça e sai.

Fuló

 

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Posted in: Conto, Escrita, Fuló